quarta-feira, junho 29, 2005

A nossa história 3






























António Botto e Judith Teixeira constituem outro exemplo de repressão da literatura homossexual portuguesa. Os seus poemas tematizam de forma vanguardista, explícita e desassombrada o amor e o erotismo entre pessoas do mesmo sexo. Ambos os escritores seriam vítimas da perseguição social crescente de um país à beira de entrar no regime ditatorial do Estado Novo. Organiza-se contra estes um manifesto de estudantes ultramontanos encabeçados por um futura figura grata do Estado Novo, Teutónio Pereira. A defesa de Botto será assumida por Fernando Pessoa em "Aviso por causa da Moral", enquanto Judith Teixeira assume a própria defesa com uma conferência pública, "De mim". Botto morre no exílio e na miséria, apesar das suas tentativas de regresso a Portugal.

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A nossa história 2



Quem já ouviu falar de Manuel Teixeira Gomes? Foi presidente da República ainda durante a 1ª República, mas foi afastado do cargo, num período político conturbado após uma campanha moralizadora contra si a pretexto dos seus escritos homoeróticos, que glorificavam a beleza masculina, sobretudo dos jovens operários. Acabou exilado no Brasil.

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A nossa história e a da nossa repressão

Inicio hoje um conjunto de posts baseados na exposição "Olhares (d)a Homossexualidade (um contributo para a história da homossexualidade no século XX em Portugal", realização e património comum do movimento lgbt, um trabalho de investigação de dois anos em que tive o privilégio de participar com uma série de outr@s activistas. A exposição, ainda muito pouco conhecida, foi apresentada ao público, pela primeira vez, em 1999, por ocasião da semana do orgulho lgbt.
Pequenas ou grandes curiosidades de uma parte da história que não vem nos livros.Comecemos pelo "prémio nobel português", Egas Moniz, que além das lobotomias com que achava que estava a ajudar as pessoas com doenças do foro psiquiátrico, ditou em Portugal, para quem não sabe, as regras do olhar "científico" que a medicina moderna lançaria sobre a homossexualidade como uma doença mental e perversão. Infelizmente, tais preceitos estariam na base da criminalização da mesma até 1982, e ainda hoje vemos perdurar os seus efeitos sempre que um novo estudo genético vem tentar dizer que é o nosso hipotálamo, o tamanho dos nossos dedos ou a forma como respondemos às feromonas é que determina a nossa homossexualidade (o que determina a heterossexualidade, claro está, não se pergunta), ou seja, ainda andam à procura da "cura". Um prémio nobel que nos custou caro.

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O que andaram os bispos portugueses a fazer ontem

Pasmam-se as alminhas, os comprovados sexólogos e pais que são os bispos portugueses "querem as escolas com uma educação sexual controlada". O que equivale a dizer que não querem uma Educação Sexual.
Para a Igreja Católica, "a educação para a sexualidade deve basear-se nas necessidades dos alunos", logo, "o respeito pelos alunos não permite a utilização de jogos e de outras estratégias, como o desempenho de papéis, que excitam a imaginação e exploram sensações de forma manipulatória, ferindo a sensibilidade e a dignidade dos alunos, e não respeitando a sua intimidade e pudor". Para os nossos bispos, a actual perspectiva da Educação Sexual "deturpa o sentido da sexualidade, (...) abre caminho à vivência da liberdade sem responsabilidade, pela ausência de critérios éticos, e à aceitação, por igual, de múltiplas manifestações da sexualidade, desde o auto-erotismo, à homossexualidade (...)".
Estamos esclarecidos: Aproveitando a campanha mediática manipulatória organizada pelo jornal Expresso contra a APF, a Igreja Católica versão Ratzinguer volta ao ataque: a Educação Sexual cabe à família (como sempre coube), a imaginação no campo da sexualidade é um perigo (como sempre foi), a masturbação faz crescer pelos nas mãos (como sempre fez), o sexo é mau (fazer bebés não é sexo) e a homossexualidade nem se qualifica (dantes queimavam-se). Entretanto, @s noss@s jovens que continuem a crescer na idade média, a correr riscos desnecessários, a engravidar antes do tempo e a viver a sexualidade na ignorância e na ausência de sentido ético e de responsabilidade.
É nestes momentos que se aplica a frase felina "melhor vir-me que reproduzir-me".

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Termómetro da Homofobia em Lisboa 2


Fiquem com uma imagem da nossa acção de ontem, mãos dadas em plena Rua Augusta. Amanhã deverá sair no DN o artigo que comprova que em Portugal, mesmo em Lisboa, vivemos tod@s pelo menos um pouco em Viseu. É impressionante ver como a jornalista pôde verificar a veracidade do que lhe tínhamos afirmado no início da acção - que seriam muitas as reacções homofóbicas expressas, mas nunca assumidas a não ser pelas costas. Uma tradução da convicção das Panteras que esta discriminação é tão invisível quanto a presença das vivências homossexuais no espaço público. Gestos banais como este na foto não são perdoados pela vigilância social informal de que somos alvo, e trazem à luz essa homofobia que é preciso visibilizar e confrontar. Simultaneamente, para as nossas "cobaias", alvo dos insultos, esta foi uma acção de libertação. Saibamos continuar estes gestos em cada dia e mudaremos a realidade.

terça-feira, junho 28, 2005

ROLHA NO CALHAU

Como em anos anteriores, as comemorações do Gay Pride em Lisboa, contaram com um Arraial organizado pela Ilga e patrocinado pelas autoridades camarárias. Espaço de festa e convívio para novos e menos novos, de afirmação e de liberdade sexual, o Arraial começou a fazer-se há vários anos atrás no jardim do Príncipe Real. Dois anos depois deixou os territórios protectores entre Bairro Alto e S. Bento e mudou-se para a Praça do Município, para a calçada renovada e simbólica do poder autárquico da cidade. Com a câmara Santana Lopes, Monsanto e o Parque do Calhau foram o local para onde se remeteu o Arraial da Ilga. Mas há 3 anos o Arraial sobreviveu a esta deportação para as periferias esconsas do Parque de Monsanto e hoje o local e o difícil acesso já não representam qualquer perigo de anonimato.
Como em todos os outros anos, a Ilga convidou bares e associações para marcarem presença e animarem o espaço. Como sempre grande parte dos circuitos LGBT da cidade, activistas associativos e militantes não faltaram à chamada.
Mas ao contrário de todas as anteriores edições do Arraial, este ano a Ilga decidiu que chamava ao palco representantes das Associações presentes apenas para lerem um excerto do manifesto que tinha convocado a Marcha da tarde. Ao contrário dos outros anos onde os representantes das associações presentes diziam livremente ao que vinham e porquê, este ano parece que só o Alexandre Frota é que teve o direito de produzir um discurso próprio, de se auto-promover e de falar do palco sem guião pré-definido pela direcção da Ilga.. Às justificações apressadas do ritmo da coisa ou do pragmatismo de quem acha que para os presentes é absolutamente irrelevante ouvir a variedade dos discursos e linguagens das várias associações e activismos, só posso responder com a convicção de que estão muito enganados. Para mais quando da discussão do Manifesto comum resultaram divergências, diferenças de interpretação sobre as prioridades e de opinião entre as quatro associações convocantes, como aliás é natural e saudável que aconteça. Esconder essas divergências usando uma rolha não é uma técnica recomendável.
Lembro uma primeira comemoração pública do 28 de Junho em Lisboa, decorria o ano de 1992. A discoteca Clímax na Estefânia, abria as portas ao GTH/PSR para a organização da estreia do Gay Pride na cidade. Nessa noite, entre outros artistas e pessoas que quiseram não só estar presentes como também participar com as suas palavras ou artes, o Al Berto subiu o lance de escadas que servia de palco e declamou a sua poesia. Na magia daquela noite inaugural, o poeta fez parte, as suas palavras reforçaram o sentimento da comunidade em estreia e desafio.
Hoje a Ilga teria, provavelmente, achado que poesia não tinha lugar nas comemorações da modernidade, ou então que seria melhor escolher criteriosamente as palavras ao poeta, ou até mesmo escrevê-las por ele.
O que se passou no Parque do Calhau foi um episódio infeliz que não apaga o mérito e o esforço da Ilga, mas que nos deve servir para reflectir sobre a frágil natureza das relações que estabelecemos dentro deste movimento/comunidade e da cultura democrática que teremos todos e todas de construir.

segunda-feira, junho 27, 2005

Termómetro da homofobia

Amanhã, as Panteras vão desenvolver, para assinalar a data do nosso dia mundial de luta, uma acção pública intitulada "termómetro da homofobia lisboeta". Em situações quotidianas da cidade: numa estação de metro, na paragem do autocarro, ou na esplanada de um café. Casais do mesmo sexo, aparentemente sós, irão exprimir gestos de carinho e afecto em público, no centro de Lisboa, para "provocar" a reacção, seja qual for, d@s transeuntes.
A acção será acompanhada discretamente pelas restantes panteras e por alguns jornalistas convidad@s para esta iniciativa.

O encontro é pelas 12.30h na praça do Rossio em Lisboa, estando toda a gente convidada a vir ver, apoiar ou mesmo participar.

O que andaram os bispos espanhóis a fazer ontem?

A título de reflexao, era só para informar que, ontem, domingo, decorreu em Madrid uma manifestaçao contra a fome e pobreza, na qual participaram 50 000 pessoas.
Note-se que, precisamente no domingo anterior, houve outra manifestaçao, na qual participaram entre 750 000 e 1 500 000 pessoas e 15 bispos, contra os casamentos civis de homossexuais.
Veja-se as prioridades das pessoas e da igreja...

(desculpem as palavras sem til, mas os teclados espanhóis nao têm.)

Foto reportagem: Panteras com Orgulho

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@s madrinhos Rui Zink e Inês Pedrosa

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O assédio jornalístico às queens

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Panteras trajad@s a rigor

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Faixa de abertura da Marcha "Cumprir a Constituição, Homofobia Não!"

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Faixa pantérica "Homofobia aos molhos, o Estado fecha os olhos"

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A Pantera que marcha

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O estandarte pantérico

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Stop Homofobia & @s que ficam de fora com medo

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O bandeirão & @s que ficam de fora com medo

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Fotos Vanda Violante; Patrícia

sexta-feira, junho 24, 2005

Homofobia aos molhos, o Estado fecha os olhos!

A recente manifestação contra a violência homófoba em Viseu marcou o movimento LGBT em Portugal. Pela primeira vez, o movimento saiu dos grandes centros urbanos para confrontar uma situação de violência, e compreendeu que, se nas leis está quase tudo conseguido, na prática social de implementação efectiva dessas leis está quase tudo por fazer. O Estado que altera as leis, é o mesmo que não as aplica: que discrimina os homossexuais na doação de sangue, no acesso às Forças Armadas, nas políticas de saúde, na protecção da vida privada d@s cidadã(o)s, os exemplos são muitos.
Viseu mostrou também que a luta contra a homofobia tem de ser feita por tod@s, em todo o lado: nos inúmeros Viseus deste país, a força de cada um(a) de nós faz a diferença na luta contra a homofobia.

O crescimento da extrema-direita e o alarde mediático em torno de um “arrastão” que afinal não existiu são sintomas mais visíveis de uma doença escondida: o medo. O medo do desconhecido. Num país onde ser diferente da norma é sinónimo de ser discriminad@, este medo tem muitos nomes diferentes: xenofobia, racismo, sexismo, homofobia.

A integração, essa é feita através do mercado. Portugal é um paradigma, com uma taxa de endividamento altíssima a compensar o défice de participação cívica. O direito a existir depende assim da capacidade de consumir, não havendo diferença entre a vida e o mercado. A vida é o mercado, e só vive quem pode comprar a satisfação dos seus desejos.

As Panteras tanto afiam as garras contra a ostracização de Viseu, como contra a normalização que o mercado nos quer vender. Queremos mais do que leis iguais para tod@s, queremos leis que promovam e protejam a diversidade. Mais do que casais bem comportados e respeitáveis, nós queremos os nossos direitos enquanto cidadã(o)s, em todos os papéis que nos cabem: amantes, namorad@s, pais, mães, filh@s. Mais do que a normalização das nossas relações, nós queremos o direito de escolher quem, quando, onde e como amamos.

Não há leis que acabem com a homofobia: há leis que promovem a igualdade. Por isso exigimos do Estado a aplicação das leis já existentes: a regulamentação das uniões de facto, a implementação da educação sexual nas escolas (sem os ditames de qualquer confissão religiosa), a aplicação efectiva do artigo 13º em todos os serviços públicos, desde o acesso às Forças Armadas, às políticas de saúde.
Queremos legislação contra os crimes de ódio, e queremos a formação das polícias, para que Viseu não se repita. Queremos ver reconhecida igualdade nos nossos direitos parentais, seja para @s noss@s parceir@s, seja enquanto pais e mães, que muit@s somos, de filhos biológicos. Queremos o acesso livre à inseminação artificial para todas as mulheres que o desejem. Queremos o fim da exclusão dos homossexuais masculinos na doação de sangue. Queremos o fim de entraves quotidianos como o impedimento de visita hospitalar aos nossos parceiros na doença. Nos tribunais, exigimos a celeridade dos processos das pessoas transgénero, e o fim do julgamento das mulheres acusadas da prática de aborto.
No ano em que o Tribunal Constitucional, aplicando o artigo 13º, declarou inconstitucional o artigo 175º (que diferencia a idade emancipatória entre hetero e homossexuais), exigimos o fim da homofobia nas leis: a interdição da adopção conjunta a casais homossexuais em união de facto, e o acesso ao casamento civil.

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Panteras na Marcha do Orgulho

As Panteras convidam-te a marchar, desfilar, cantar, rugir, dançar e sabe-se lá que mais (nós sabemos, mas é surpresa) amanhã Avenida da Liberdade abaixo.
A Marcha começa às 17h, mas o ensaio geral pantérico inicia-se por volta das 16h, no topo da Avenida, em frente ao Diário de Notícias.
Aparece e vem afiar as garras connosco!

terça-feira, junho 21, 2005

O debate do casamento

Quero partilhar o debate que estou a ter com o Miguel Vale de Almeida sobre um tema que tem atravessado a blogayesfera, o do casamento.
Quem quiser seguir o debate até à origem, clique no título deste post, tem um link para o blog do Miguel.

Em primeiro lugar quero reconhecer que a publicação que escolhi para esgrimir os meus argumentos não foi a melhor, pois transportei "para fora" um debate interno ao movimento de maneira algo desastrada, coisa que costumo eu próprio desincentivar.
Por outro lado quero queixar-me da maldade (:)de me obrigares de novo a ler o meu texto. Fico sempre horrorizado quando releio os meus escritos e nunca gosto...
Anyway, não me parece que tenhamos posições assim tão diferentes quanto à reivindicação do casamento, mas passo a esclarecer as alegadas contradições.
Não era intenção do meu texto lançar uma desconfiança estratégica sobre a reivindicação do casamento. Como lá digo, é agora, sob influência dos acontecimentos em Espanha, que essa luta tem que se travar, e na sequência dos desenvolvimentos legais que temos tido por cá é esse o seguimento lógico. A agenda legal do movimento LGBT português está quase completa no que toca a leis discriminatórias, faltando quase apenas o último reduto dos direitos familiares: direito ao casamento, com todos os direitos associados.
Aquilo que eu tentei defender foi a) a necessidade de ver o fenómeno espanhol sem ilusões demasiadas e cenários cor de rosa. É extremamente interessante o que se passa em Espanha, mas também, naturalmente contraditório. E inexportável. b)a necessidade, de há muito, mas sobretudo quando se lança uma reivindicação estratégica, de questionar as dificuldades históricas do nosso movimento na comunicação com a(s) comunidade(s) que este pretende representar ou pelo menos defender, e de agir em conformidade; c) a necessidade de debater como se avança para a reivindicação do casamento: se apenas como reivindicação de igualdade ou se de uma perspectiva crítica (anti-sistémica e expressa) do patriarcado e dos valores familiares que numa sociedade já tão diversa continuam a funcionar com referência ideológica.

Não me parece que falar de opiniões "integracionistas" e "transformadoras" seja um anacronismo, embora reconheça que é redutor se tentarmos caracterizar as organizações existentes hoje. É certo que "reivindicações aparentemente integracionistas - como o direito ao casamento - podem resultar radicais; assim como certas reivindicações "radicais" podem ser contraproducentes, quando não esvaziadas de conteúdo". Mas também é certo que o sistema económico e político actual, sobretudo em tempos de globalização de valores e de mercados, exerce uma pressão integradora sobre as comunidades LGBT, no sentido de eliminar o subversividade óbvia que tem a homossexualidade num contexto social e mental que continua maioritariamente homofóbico. Se no universo comercial isso não é intencional - a despolitização e a sociedade de consumo são um problema geral e não apenas homossexual -, nos países onde tem havido evolução legal, os Estados, que já não nos podem esconder, preferem hoje aceitar certo nível de reivindicações e modelar-nos de forma a que a homossexualidade se torne neutra e conforme aos valores dominantes. Neste contexto, ela pode ser tolerada, mas o problema é que este contexto em que (alguns) queremos "casar e viver felizes (não direi para sempre)" é o mesmo que reproduz continuamente a homofobia.
Tudo isto para dizer que é verdade que o acesso dos casais do mesmo sexo ao casamento pode vir a transformar irreversivelmente a instituição do casamento e contribuir para desmembrar a homofobia social. Mas sem discurso crítico, pode também vir a reforçar modelos familiares que fazem parte do esquema de reprodução da discriminação (não falta conservadorismo a grande parte da comunidade lgbt).
Ora, que as pessoas, mesmo as conservadoras que queiram reproduzir os modelos heterossexistas em relações do mesmo sexo, devem ter o direito de escolher não casar ou casar, estamos de acordo, e juntos nessa campanha. Eu, pessoalmente, quero reivindicar o direito a escolher não casar, e para isso tem que me ser reconhecida a possibilidade de o fazer.
Mas o reparo deve ser feito: quanto mais formas de relacionamento e reconhecimento familiar, melhor, para homos e heteros, e quanto menos cópia dos modelos existentes, melhor.

Por outro lado, a minha preocupação com um eventual esvaziamento da agenda lgbt não tem a ver com um eventual momento de conquista do casamento. É mais geral: tem sim a ver com uma estratégia que privilegie apenas as reivindicações legais. Lembro que sempre que obtivémos uma, o discurso que se reforça é o de que já não há discriminação. E quando obtivermos todas? (já estivemos mais longe, embora o contexto homofóbico não tenha perdido grande força).

É evidente que nenhum movimento pode actuar apenas pela "negativa", em "reacção" a situações de discriminação. Mas a estratégia fundamental do movimento que hoje integro - as Panteras Rosa - é precisamente revelar uma e outra vez, e outra ainda, casos de homofobia concretos, os tais em que reconheces haver um potencial - visilizar a homofobia destrói os discursos de manter o tema na vida privada e aniquila as novas homofobias ligth do género "sou pela igualdade de direitos mas... (em que o mas costuma ser a adopção). Mais, confronta a sociedade com uma homofobia latente que já não se pode negar, e portanto abre caminho para outras agendas. E mais urgente ainda: desnuda a homofobia internalizada que tão responsável é pelas dificuldades de comunicação da comunidade com o associativismo, e retira-lhe as bases. Para mim, esta é uma estratégia com o seu tempo delimitado, mas extremamente actual.

Concordo que o movimento enquanto tal não pode privilegiar esta questão como central, mas não deixo de defender que na situação portuguesa actual é absolutamente necessário que alguém o faça a par da outra agenda (a do casamento, por exemplo), e que essa vertente não deixe de estar presente na análise global do movimento e no discurso que este produz.

Finalmente, não é verdade que em Espanha as posições de cautela venham apenas dos sectores "minoritários, mais radicais, e com uma suspeita intelectual e teórica em relação ao casamento em si (homo ou hetero)", esses grupos anacrónicos que não evoluíram depois dos anos 70 e que eu também não compreendo. Os temores que ouvi em Espanha - e fiquei atónito - vêm precisamente de dirigentes da COGAM e organizações com esta, precisamente dos mais empenhados na conquista do casamento. Mantenho a ideia de que em grande medida a força do movimento em Espanha é um balão de ar quando visto de perto, e é isso mesmo que eles reconhecem.

Sei que "o mercado pode tanto ser "local" de alienação como "local" de emancipação". Mas também sei que hoje ele tem tendência para se substituir grandemente à política e ao associativismo, e para reproduzir modelos discriminatórios como modelos gays "mainstream". Até o desejo nos é formatado pelo mercado... isso é mau, embora seja obviamente bom que na sociedade de consumo em que vivemos, a população lgbt não seja excluída de uma quota-parte de produtos e serviços seus.

Miguel, desculpa o tamanho do comentário, mas isto empolga-me... vou postá-lo no blog das panteras com link para aqui.
um abraço
sérgio

sexta-feira, junho 17, 2005

"Sentimos fúria e revolta. Usar queer é uma maneira de nos lembrarmos de como somos vistos pelo resto do mundo. É uma maneira de dizermos a nós própri@s que não temos de ser pessoas espirituosas e encantadoras que mantêm as vidas marginalizadas e discretas no mundo heterossexual. Queer pode ser uma palavra rude, mas é também uma arma irónica que podemos roubar à mão d@ homófob@ e usar contra ele/a."
«NYQ» (1992)

quarta-feira, junho 15, 2005

A homofobia (está-lhes) no sangue

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Segundo dados da própria Organização Mundial de Saúde, 80% do sangue utilizado nas transfusões não é seguro (ou seja não é testado para detectar a presença de doenças, como as hepatites B e C, o HIV ou a sífilis).
Uma política da recolha de sangue em Portugal, para contornar a ausência de testes, mas promovendo uma cultura de "segurança" nas dádivas de sangue, é a interdição da doação de sangue a gays. As justificações apresentadas são de dois tipos: a "prevalência significativamente mais elevada de HIV" (sic) entre os gays; e a prática de sexo anal.
D@s responsáveis pela política do sangue em Portugal esperava-se, pelo menos, o domínio dos factos e uma actuação adequada à realidade. A análise da prevalência das infecções por HIV por grupos de risco foi substituída internacionalmente há anos pela de comportamentos de risco. Mais, o grupo em que a infecção está a crescer mais rapidamente actualmente é o das mulheres heterossexuais, que representam já mais de metade das pessoas infectadas a nível mundial.
Completamente desfasadas da realidade, as instituições portuguesas servem-se da e alimentam a homofobia para esconder um grave problema de saúde pública em Portugal: a realidade que o sangue recolhido em Portugal, na sua maioria, não é testado, e é potencialmente perigoso.

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segunda-feira, junho 13, 2005

Noivas de Santo Queer

Jornal Público de hoje:

"'Nó' dado sem homossexuais"

O vereador comunista na autarquia de Lisboa, António Abreu, vê com bons olhos que os casamentos de Santo António integrem num futuro próximo casais homossexuais, considerando que esta questão deve ter uma solução legal. O vereador defendeu que a integração de casais homossexuais é o caminho a seguir. Para que tal seja possível, a legislação em vigor tem de mudar. Para o vereador, uma solução legal que permita casamentos entre pessoas do mesmo sexo deve ser discutida brevemente
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PROIBIÇÃO MARCHA DO ORGULHO

Sem medo de se repetir, o dirigente da associação Opus Gay, António Serzedelo, volta pelo segundo ano consecutivo a acusar publicamente (esperemos pelos jornais!) as associações que organizam a Marcha do Orgulho LGBT (Panteras Rosa incluídas) de proibirem a sua participação e de serem todas (todas!) fantoches do Bloco de Esquerda.
A alegada "proibição" não o impediu de ter participado no ano passado, sem nenhum obstáculo, nem de ir ter com a imprensa e os partidos políticos como se fosse o organizador do evento (a Opus não esteve envolvida na organização) e nem mesmo de prestar aos jornalistas as tristes declarações que então fez com prejuízo do sucesso do evento, que continua a ser património de toda a comunidade e todo o associativismo LGBT.
Revejamos a história. Desde o seu nascimento (97), a Opus Gay conseguiu entrar em conflito, à vez ou todos juntos, com todos os restantes colectivos LGBT portugueses, e sempre transpôs para a imprensa essa sua guerra, coisa que as associações vítimas desses ataques nunca fizeram.
O culminar desta situação foi o Fórum Social Português em 2003 - e mais tarde a Marcha do Orgulho 2004 - durante o qual todos os outros colectivos LGBT verificaram ser impossível trabalhar com a Opus: ao mesmo tempo que reuniam com esta tentando coordenar trabalho, eram insultados por ela nos jornais, nomeadamente com acusações de partidarização (numa versão preto e branco: na imaginação de Serzedelo apenas a Opus Gay, de todas as associações existentes, não estaria ligada ao Bloco de Esquerda).
Aqui está, portanto, a imagem que António Serzedelo tem insistido em passar a público - a da desunião e partidarização do movimento - fragilizando todo o movimento face à sociedade heterossexista.
Tem-no feito bem. Apesar de todas as restantes associações sempre terem trabalhado juntas, e apesar dos progressos que o movimento tem conseguido, com esse juntar de esforços (Uniões de Facto, fim dos regulamentos discriminatórios, artigo 13º da Constituição, etc), muitos gays e lésbicas pensam mesmo que as associações estão sempre à batatada e não se entendem.
Hão-de reparar, porém, que cada vez que ouvem falar de problemas, a Opus Gay é sempre um dos lados do conflito. Não vos põe isso a pensar que haverá ali qualquer coisa de estranho?

Esclarecemos pela nossa parte:
a) a Opus Gay não foi proibida de participar na Marcha. Esta é aberta a
tod@s.
b) Simplesmente, a Opus Gay não foi convidada a integrar a estrutura que organiza o evento, porque as restantes associações não conseguem trabalhar com esta, e também porque esta associação não se coibiu de prejudicar a própria Marcha de 2004 em nome do ataque público que queria fazer às restantes associações.
c) os colectivos LGBT em Portugal são diversos e autónomos e não têm nenhum condicionamento partidário. Isso parece incomodar...
d) as Panteras, porque são recentes, talvez, tiveram desde o início uma relação cordial e até de colaboração recente com a Opus Gay. Acusamos, naturalmente, o toque de sermos
atacad@s publicamente por uma associação que tomámos e tomamos por nossa parceira no combate à homofobia. Assim queremos continuar, se for possível.

Registe-se finalmente que a calúnia de que a Opus teria sido proibida de ir à Marcha está a produzir bons efeitos: em alguns blogs, comentadores furiosos - que se topa, nunca foram à dita Marcha -oferecem-se voluntariosamente para ir marchar este ano, em defesa do direito de António Serzedelo a estar presente. Venham, vamos
tod@s :)
Assim pois, neste 2005, congratulamo-nos por finalmente a Opus Gay ter resolvido mobilizar para a Marcha do Orgulho.

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Adrienne Rich

Em re-leitura recente da ORGANA (Lembram-se? A primeira revista lésbica portuguesa, 1990-1992), encontrei a tradução de um texto de Adrienne Rich, poeta e ensaísta estadunidense, que assim escrevia sobre a lesbofobia em 1980:
"Se olharmos bem e claramente a extensão e elaboração das medidas destinadas a conservar as mulheres dentro do território sexual masculino, torna-se interrogação inescapável se a questão que temos de encarar (...) é, não simplesmente a desigualdade sexual, não o domínio da cultura pelos homens, não meros tabus contra a homossexualidade, mas sim a imposição da heterossexualidade como meio de assegurar o direito masculino de acesso físico, económico, e emocional. Um de entre muitos meios dessa imposição é, naturalmente, a invisibilização da possibilidade lésbica, um continente submerso que se ergue fragmentariamente aos nossos olhos de tempos a tempos apenas para ser novamente submerso (...) o pressuposto que a maioria das mulheres são inatamente heterossexuais estabelece-se como um obstáculo teórico e político para muitas mulheres. Tal pressuposto permanece sustentável, em parte porque a existência lésbica tem sido erradicada da história ou catalogada como doença; em parte porque esta tem sido tratada como excepcional e não intrínseca; em parte porque o reconhecimento que, para as mulheres, a heterossexualidade poderá não ser de todo uma preferência mas algo que tem de ser imposto, gerido, organizado, propagandeado, e mantido pela força é um passo enorme a tomar se uma mulher se considera livre e inatamente heterossexual".

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domingo, junho 12, 2005

As Panteras apresentam-se

As Panteras Rosa são um projecto de denúncia e combate à Homofobia e um Observatório deste tipo de discriminação:

- trabalham na resolução dos casos concretos de discriminação e na sua denúncia;
- documentam e analisam a homofobia em Portugal;
- combatem a homofobia internalizada pela própria comunidade homossexual;
- visibilizam, para lá dos estereótipos e dos preconceitos, a vivência homossexual na sua realidade concreta, ainda condicionada pela discriminação.

As Panteras Rosa são um movimento colectivo e sem hierarquias, que aposta numa democracia radical e na acção directa, aberto a tod@s quant@s queiram contribuir para comprovar que a homofobia não se trata de uma questão homossexual, mas sim de um problema social de enorme gravidade e que a tod@s afecta.
Observatório Homofobia/Transfobia na Saúde @ Médicos Pela Escolha
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