sábado, julho 14, 2007

Reunião com a direcção do I.P.S. - 12 Julho

Panteras Rosa, 13 de Julho de 2007
Reunião com a direcção do Instituto Português do Sangue de 12 de Julho


No dia 16 de Maio, as Panteras Rosa entregaram no Ministério da Saúde um pedido de intervenção do Ministro Correia de Campos junto do Instituto Português do Sangue (instituição sob a sua tutela), apelando à toma de medidas políticas necessárias para pôr cobro à discriminação de homossexuais masculinos na doação de sangue. Na sequência desta acção, foi requisitada, pelo próprio director do IPS, Dr. Gabriel Olim, uma reunião com as Panteras Rosa, no sentido de esclarecer a situação.

Resumo do encontro: Na referida reunião estiveram presentes, por parte das Panteras Rosa, Sérgio Vitorino e Bruno Maia, da parte do IPS figuraram Gabriel Olim, director, uma consultora para a Saúde Pública e uma consultora Jurídica.
A reunião iniciou com uma pequena introdução do director, que não só referiu os objectivos essenciais do IPS – recolha de uma grande quantidade de dádivas para fazer face às necessidades do país e de apuramento da qualidade dessas dádivas através do rastreio de sangue contaminado – como nos explicou que Portugal, está desde há 4 meses em auto-suficiência transfusional, isto é, a doação de sangue, pela primeira vez, é suficiente para as necessidades dos nossos hospitais.
No ponto seguinte, o Dr. Gabriel Olim explicou que a base do critério de exclusão para homossexuais masculinos, reside na uniformização de critérios internacionais, a que o IPS está sujeito por integrar uma rede europeia de transfusão sanguínea. De acordo com este, em quase toda a Europa, os homossexuais masculinos estão excluídos da dádiva, facto que assenta unicamente em dados epidemiológicos. Estes dados, que terão sido recolhidos nos EUA, mostram que a aceitação da doação por homossexuais implicaria um risco de recolha de sangue contaminado aumentado em 100%. Ou seja, o risco de um doente receber uma dádiva contaminada duplicaria! Aceitando, por contra-argumentação nossa a desactualização destes dados e a desadequação à realidade Portuguesa, Gabriel Olim, referiu que para contrariar estes dados e acabar com a discriminação, só o poderá fazer quando a nível europeu surgir algum estudo epidemiológico de base populacional e fidedigno, que demonstre claramente que a prevalência de infecção por HIV, HBV e HCV não apresenta diferenças significativas entre homo, bi, ou heterossexuais. Só com base em informação deste tipo é que o IPS poderia aceitar mudar este critério. Caso contrário, este instituto teria de justificar-se perante os organismos internacionais e a opinião pública.
Perante a contra-argumentação das Panteras, reafirmando a necessidade de se falar em comportamentos ou práticas de risco e não em grupos de risco, da actualização dos critérios de doação, tornando-os mais ajustados à realidade, de percepção por parte do IPS que não é a orientação sexual que está em causa mas sim as atitudes individuais de cada dador face à sua sexualidade, o director do IPS volta a reafirmar a pressão a que está sujeito e que uma alteração de política só poderia advir de um facto cientificamente concreto.
É nesta fase que nos é proposto, pelo IPS, um acordo comum: o IPS sugere a realização de um estudo epidemiológico, por uma entidade independente, com proposta de colaboração da Coordenação Nacional para a infecção do HIV/Sida, em que fossem avançados resultados comparativos, que atestem estatisticamente não existir diferença significativa na prevalência de doenças infecciosas entre grupos de homossexuais e grupos de heterossexuais. Desta forma, o IPS comprometer-se-ia a alterar as regras na selecção de dadores e a apresentar os resultados deste estudo a nível Europeu, no sentido de sensibilizar os restantes países a alterarem também as suas regras. O IPS disponibilizar-se-ia a colaborar de forma independente e aceitaria a presença de associações LGBT e de luta contra a SIDA como observadores externos. O Dr. Gabriel Olim reforçou ainda que esta seria a única forma de conceder às alterações necessárias e seria também uma forma de criar uma trégua com a contestação que lhe tem sido dirigida.
Confrontado com a discrepância e deturpação preconceituosa das regras e critérios nos vários centros de recolha de sangue do país – ex. ainda há menos de uma semana recebemos queixa de um dador homossexual a quem o médico responsável de um centro de recolha em Torres Vedras afirmou que “para os homossexuais não há período de janela definível”. Outro exemplo, o próprio IPS reconhece a existência ilegítima, face às suas normas estipuladas, de casos em que dadoras lésbicas foram excluídas pela sua orientação sexual - o IPS comprometeu-se ainda a enviar uma nova (Olim referiu circulares anteriores, de que não tínhamos conhecimento) circular normativa a estes, no sentido de cumprirem objectivamente as regras centrais do Instituto.

Comentário: Deste encontro retiramos várias conclusões importantes. Em primeiro lugar, pela primeira vez, o IPS demonstra, ao convocar a reunião, que a pressão que tem sido feita por parte de partidos políticos e movimento LGBT tem causado incómodo junto deste instituto. Em segundo lugar, o IPS reconheceu claramente que as declarações do ano passado segundo as quais estava em preparação uma revisão das normas que afectaria esta proibição eram apenas estratégicas, e portanto, falsas.
Depois interpretamos que a proposta de realização deste estudo é, claramente, uma tentativa de silenciamento da questão junto daqueles que se têm manifestado contra as regras de doação. A realização de um estudo desta envergadura leva o seu tempo, tempo que seria suficiente para o IPS ter a trégua desejada.
Contudo, a proposta do IPS lança um desafio interessante, e até independente da problemática do sangue: estudar os comportamentos sexuais dos Portugueses (e não apenas da população homossexual), permitindo-nos perceber a realidade dos comportamentos para a saúde e das IST’s também na comunidade homossexual com utilização de recursos estatais, o que seria inédito.
Deixámos, assim, claro ao presidente do IPS que um estudo desta natureza nos interessa, mas não porque permita retirar conclusões para doação de sangue: nenhum estudo sobre um grupo social, mesmo que conclua que existam diferenças em termos de epidemiologia (e essas são sempre conjunturais e mutáveis ao longo do tempo, exigindo sempre estudos sucedâneos), pode servir para uma exclusão generalista do mesmo grupo social, porque, lá está, o foco da selecção dos dadores deve estar nos comportamentos e práticas sexuais de risco, e não na orientação sexual das pessoas, ou seja, cada pessoa é um caso. Mais, afirmámos que qualquer estudo sobre a sexualidade dos portugueses, mesmo que venha a apontar diferenças na incidência de IST’s entre hetero e homossexuais, comprovará algo muito mais determinante – ou devia sê-lo – para quem pretende garantir a qualidade do produto sanguíneo: a inexistência de práticas sexuais especificamente homossexuais – sexo anal, sexo oral, todos os tipos imagináveis de penetração genital ou com recurso a objectos, continuamos à espera que nos indiquem uma prática, de maior ou menor risco, que se possa dizer que é praticada por homossexuais e não exista entre heterossexuais. Visto que os dados epidemiológicos hoje disponíveis em Portugal apontam, por exemplo, para um grande crescimento da taxa de infecção pelo VIH entre mulheres casadas, perguntámos ao presidente do IPS se seria justificável que isso fosse critério para excluir liminarmente da doação as “mulheres casadas”. Obviamente que assim se demonstra um duplo critério, e que a generalização só é aplicada contra um grupo socialmente estigmatizado como é o da população homossexual masculina. O IPS reconhece, claramente, que a norma não existe por critério médico, mas como consequência do preconceito social contra a homossexualidade.
De qualquer forma, ao propor tal estudo, Gabriel Olim, a quem reconhecemos – e deve registar-se – capacidade de diálogo e disponibilidade para ouvir e argumentar (que o seu antecessor não tinha), reconhece que a norma proibitiva do IPS se baseia em… nada, ou seja, num desconhecimento de facto da realidade do grupo social que se exclui liminarmente.
Sabemos, por outro lado, que a Coordenação Nacional para a Infecção VIH-Sida já se encontra a financiar um amplo estudo sobre a sexualidade dos portugueses, pelo que não se justificará a realização de um novo estudo, muito menos um estudo apenas epidemiológico. De qualquer forma, tal como o IPS pelo seu lado, estamos a desenvolver contactos com o coordenador nacional para auferir a sua posição sobre esta proposta. Se ela, como prevemos, apontar para este estudo já em realização, naturalmente, convidaremos o IPS a retirar dele conclusões, não quanto aos dados epidemiológicos, porque esses não são generalizáveis (o IPS não generaliza para todos os homens heterossexuais, por exemplo, o facto estudado de 40% destes recorrerem a sexo com prostitutas e de uma alta percentagem o fazer sem recurso ao preservativo), mas sobre, precisamente, a inexistência de práticas sexuais especificamente homossexuais.
Em conclusão:
- estudos, para mais não-exclusores da realidade lgbt e financiados estatalmente, colaboraremos com o IPS e outras entidades, em todos os que quiserem realizar, desde que não sejam tendenciosos. Não temos medo da informação que estes possam revelar, nem somos dos que pensamos que se os dados epidemiológicos revelarem um crescimento das taxas de infecção entre homossexuais, é um desastre que tais dados sejam divulgados. Só conhecendo a realidade se pode intervir nela. Se o movimento LGBT tiver por essa via de regressar em força à prevenção, como nos anos 80 foi necessário fazer, é porque isso se revela necessário. Se – e repetimos, se - assim for, assim terá de ser, e não podemos fugir a essa responsabilidade. Mais – achamos duvidoso que, a serem revelados dados que indiquem um crescimento das taxas de infecção entre a população LGBT, eles não sejam acompanhados pela constatação de um crescimento idêntico entre a população heterossexual.
- Isso não tem nada que ver, porém, com a questão da doação de sangue. O fim da norma proibitiva justifica-se pela inexistência de práticas sexuais especificamente homossexuais, e pela ilegitimidade de generalizações sobre todo um grupo social. Só os comportamentos de risco importam, e esses só são analisáveis pessoa a pessoa, e se o IPS insiste em não pensar assim, então é este organismo o primeiro a colocar em risco a segurança do produto sanguíneo, e a eficácia da sua própria missão. Que os responsáveis políticos e os médicos do IPS não o entendam, é sem dúvida o maior e mais perigoso comportamento de risco no que toca à protecção da qualidade do sangue.
Esperamos assim, que brevemente seja planeada uma reunião entre associações LGBT, Coordenação Nacional para a infecção VIH/Sida, associações de luta contra a sida e IPS, e prestaremos contas públicas sobre o desenvolvimento deste processo de diálogo. Não esperamos, pelo que acabamos de descrever, que o IPS altere a norma discriminatória a breve prazo, pelo que o nosso único compromisso é o do diálogo, da continuação da afirmação das nossas posições, sem prejuízo da colaboração nos estudos independentes que venham a ser propostos.
Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTransfobia

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UEEH 2007


Inicialmente um projecto de encontro inter-associativo do movimento lgbt francês, em toda a sua diversidade, as Universidades de Verão Euromediterrâneas das Homossexualidades são para nós, desde há alguns anos e ainda hoje, um dos mais amplos, interessantes e produtivos encontros do activismo lgbt europeu e, cada vez mais, mundial. Do Leste Europeu aos activistas africanos, do Canadá ao Oriente, dos grupos radicais aos colectivos institucionais, muitos projectos de trabalho internacional se têm cruzado em Marselha anualmente, num espaço auto-organizado que junta mais de 600 activistas gays, lésbicas, bissexuais, transgénero e intersexo a cada realização.
É lá que estamos a partir de domingo, cada vez com mais participantes portugueses/as, orgulhos@s do contributo que temos dado para a internacionalização de um espaço de convergências onde vimos, por exemplo, nascer o projecto do Dia Mundial Contra a Homofobia, e onde há anos conhecemos as primeiras Panteras Rosa, as de Paris e do Québec, que nos inspiraram à criação das Panteras em Portugal, geminadas mas com características e identidade próprias e adequadas à situação nacional.
Internacionalismo, pois claro, ou não fosse a questão mundial, a solidariedade internacional fundamental, o abrir de horizontes enriquecedor, e a opressão heterossexista global, a exigir uma luta igualmente global. www.ueeh.org

terça-feira, julho 03, 2007

E esta semana: PORTO! :)


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Assembleia Internacional Trans - Panteras em Barcelona

Panteras Rosa integram a "INTERTRANS"

Um representante das Panteras Rosa esteve este final de semana em Barcelona para participar numa assembleia internacional organizada pelo colectivo trans catalão Guerrilla Travolaka (qualquer coisa como Guerrilha Traveca). Uma assembleia essencialmente composta de trans activistas do Estado Espanhol, Catalunha e outras regiões do mesmo, França, Portugal, Inglaterra e Venezuela.
O Stef, que nos representou, descreve assim a experiência:
"Estávamos tod@s de acordo quanto ao facto de o nosso primeiro combate comum ser a despsiquiatrização da transexualidade e a retirada da lista oficial das doenças mentais. Formou-se uma rede internacional a que se chamará "Intertrans " composta já por 29 indivíduos /grupos/ associações, com vista a este combate pela despsiquiatrização, para já a nível europeu. Sendo Portugal o País, de entre os presentes, em que há menor visibilidade trans e muito poucos/as trans activistas, e com uma das situações sociais mais urgentes, Lisboa foi escolhida para uma das próximas assembleias - não antes de 2008 - o que poderá significar para nós a realização de uma acção em Lisboa com a participação destes activistas internacionais.
Por outro lado, a guerilla travolaka manteve correspondência de ordem privada com a equipa oficial dos psiquiatras de Barcelona, e estes são claramente contra a psiquiatrização d@s trans, só faltando ver como poderão ser levados a tomar essa posição publicamente.
Com o apoio de algumas associações lgb, manifestámo-nos diante do edifício da Saúde Mental, onde decorreram performances e se colocou uma faixa: o diagnóstico da disforia é transfóbico. As panteras já estavam na lista das organizações que apoiavam esta acção.

à tarde, houve um colóquio com um público lgbt, onde tive oportunidade de contar o caso do assassinato de Gisberta em Portugal. Resumi também o percurso trans nacional e a situação actual, as dificuldades com os documentos e as mudanças de nome, e a duração inacreditável do processo, bem como da precariedade que ela arrasta consigo para as nossas vidas.
Seguiu-se o debate. À noite, recebi do Colectiu Gay de Barcelona o prémio Triângulo de Ouro, atribuído às Panteras Rosa pelas acções internacionais sobre o caso Gisberta (bravo a todos/as). O prémio para o mais homofóbico foi atribuído à polícia catalã.
No dia seguinte, 40.000 pessoas no Pride de Barcelona, com o tema da despsiquiatrização d@s trans como temática central (vejam o magnífico cartaz abaixo). Aqueceu-me o coração ouvir ler as reivindicações trans perante uma assembleia de 40.000 pessoas, com slogans como "nós somos eufóricos", "o diagnóstico é transfóbico", "os psis são doentes", e na cabeça do cortejo, o carro da Guerrilla Travolaka que levava um conjunto de psiquiatras solidários."

Se é certo que na maioria dos países os procesos médicos de transição não são financiados, alguns há em que o são. E tal como em Portugal, no Estado Espanhol, em algumas das suas regiões, o Estado financia as cirurgias de reatribuição de sexo para transexuais. E, no entanto, sem medo e sem pretensão de perderem esse benefício, que favorece muit@s trans sem as possibilidades económicas que os procedimentos médicos exigem, num país em que a população trans tem já um reconhecimento social com que nós ainda apenas sonhamos, há uma nova geração de activistas trans que está a fazer do combate à psiquiatrização forçada a sua prioridade.
É para vermos quanto longe estamos do que se passa aqui ao lado.




Os nossos parceiros:
http://www.guerrilla-travolaka.blogspot.com/

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"Mãos ao alto, a Chueca é um assalto!"


As Panteras no cortejo alternativo no Europride 2007

"Mãos ao alto, a Chueca é um assalto!": é reveladora a palavra de ordem que mais sucesso fez ao longo das muitas horas em que o Bloque Alternativo - rede que congrega vários colectivos LGBT alternativos de Madrid - desfilou no Europride este final de semana. Sob o lema "Orgulho é protesto, a quem é que isso incomoda?", o desfile crítico, mas integrado no cortejo do Europride, começou por juntar 300 activistas, entre os quais um grupo de Panteras Rosa de Lisboa e do Porto, e foi engrossando ao longo do dia, pela simpatia despertada junto do público que assistia, a ponto de ter terminado com mais de 1500 pessoas e constituído um dos maiores, senão o maior, cortejo na manifestação do Europride.


De facto, as palavras de ordem escolhidas pelos nossos parceiros madrilenos parecem ter sido escolhidas para ir de encontro aos sentimentos de largas camadas do público: "fufas e maricas, também queremos casas"; "maricas e fufas também são classe operária"; "prazer anal contra o capital, prazer clitoriano contra o vaticano", e outros dizeres POLÍTICOS arrancaram uma recepção entusiástica da parte de milhares de pessoas, demonstrando bem as contradições actuais do processo de "normalização" da causa LGBT no Estado Espanhol, e um mal-estar evidente com a extrema comercialização e despolitização crescentes do movimento, sobretudo após os recentes - e importantes - avanços legais ali conquistados (casamento, adopção, Lei de Identidade de Género), que representam de alguma forma - e erroneamente - um "fim de linha" e um adormecimento para o movimento mais institucionalizado, e muito colonizado pelo PSOE, que se encontra no governo, como se a discriminação tivesse terminado com a igualdade formal reconhecida na Lei e não houvesse mais motivos para lutar, e como se os avanços sociais conseguidos em grande parte através do poder e da influência do "comércio rosa" não fossem acessíveis apenas a uma minoria da comunidade com poder económico para o consumo.

Eurocirco?
O Europride em si é o exemplo máximo deste estado de coisas: com quase nada de política ou reivindicação, parece uma ode ao dinheiro e ao consumo e à confusão instalada entre emancipação e capacidade de consumir, uma catedral de corpos masculinos (eles rendem sempre mais dinheiro do que elas), todos iguais, musculados pelos mesmos ginásios, como se talhados a plástico e produtos de beleza para parecerem qualquer coisa como "verdadeiros gays", com o comércio a definir identidades em vez das pessoas, como se o "gay" se definisse pelo que veste e consome. Enormes camiões TIR de todo o tipo de marcas e projectos comerciais, todo o tipo de multinacionais vestidas de arco-írios e transfiguradas em "amigas" dos gays, o camião do google a perguntar se já comprámos o nosso não-sei-o-quê, a Coca-cola a dizer-nos que os gays é aquilo que bebem (ou então não são gays?), numa espécie de mundo rosa em que supostamente já não há discriminação, mas tudo se compra e vende (até o direito a ser-se gay) e se conclui que quem não compra não ganhou ainda o direito à não-discriminação. Um circo? Foi a melhor palavra que nos ocorreu: um grande, grande circo.


E no entanto, nas ruas de Madrid, fora do conforto "conquistado a consumo" no bairro Chueca, a homofobia e a transfobia a nú, como sempre esteve. As iniciativas da Bloque Alternativo, centradas nos bairros populares de Madrid - passeatas, debates públicos, comidas populares em praças centrais... - a despertarem tanta simpatia como as reacções fóbicas e agressivas que talvez esperássemos encontrar em Lisboa, mas já não em Madrid. Ah não? Pois, sim. Longe do negócio e das multinacionais, longe do euro rosa e entre quem não o tem (rosa ou de outra cor), tudo na mesma, e o conflito social que nos opõe à LesBiGayTransfobia absolutamente reconhecível e às claras, como todos os dias o sentimos no nosso próprio País. E nos bairros pobres, entre quem tem pouco, a comunidade LGBT vista injustamente como privilegiada e rica, pois essa é a imagem que se quer criar.


"Orgullo Europeo, Orgullo pesetero!"


Daí o interesse despertado pelas organizações do Bloque Alternativo, em relação ao qual reconhecemos um apoio popular que não se sente de igual forma face a um movimento institucional que se construiu apenas com base na influência política e mediática, no poder do comércio, e numa perigosa e comprometida promiscuidade com o poder político (PSOE). No Bloque Alternativo participam, exactamente, entre muit@s jovens, alguns/mas dos/das activistas mais históricos do movimento, herdeiros da "Radical Gay", anos 90, que ao longo de tantos anos foram aqueles que realmente provocaram a mudança social sobre a qual cresceu o recente e até há pouco tempo pouco influente movimento institucional, mas cujo trabalho este movimento institucional reivindica hoje exclusivamente para si. Assim se reescreve a história, e reescreve-se a dinheiro.Os colectivos e activistas do Bloque Alternativo tentam - sem renegar a festa e a celebração - fazer regressar o movimento LGBT em Madrid aos princípios e reivindicações políticas e sociais originais do movimento LGBT e que, para lá do discurso turístico, se comprova que também no Estado Espanhol continuam por conquistar.

Daí a tomada de posição do nosso cortejo, que não se deixou dispersar no final da manifestação - como pretendiam e tentaram impôr os organizadores - e reapareceu numa espectacular acção directa não-violenta de 300 activistas que simplesmente detiveram a marcha do Europride durante 15 minutos, ao iludirem a polícia e se sentarem e bloquearem a passagem a um dos grandes camiões TIR com um conjunto de faixas onde se lia "os nossos direitos não são um negócio". O camião em causa foi bem escolhido, mas outros poderiam ter sido: este pertencia à empresa "Infinitamente Gay", que patenteou a sigla "Europride" no Estado Espanhol, e à qual têm agora de se pagar direitos se se quiser utilizar a palavra.

"Orgulho Europeu, orgulho do dinheiro", gritou-se. E com razão, num contexto em que o comércio se substituiu claramente e ilegitimamente ao movimento social, com a permissão de uma elite privilegiada e moderada do próprio movimento.


Política e Comércio


Sinal de "normalização", dizem-nos. Sinal, respondemos nós, de ocultação do facto de nesta sociedade, como ela ainda é, não haver espaço para normalização nenhuma, mas apenas para um atenuar estratégico mas não-duradouro da discriminação em função da capacidade de consumo de cada um/a.

É evidente que ali, como em Portugal, o comércio LGBT (sempre muito mais G que L, B ou T) tem um papel a desempenhar no processo de luta pela libertação LGBT. Que seria de nós sem os nossos bares, espaços de protecção e socialização, e de criação de consciência comunitária, por mais débil que ela seja ainda em Portugal? E porque não haveríamos nós, LGBT, de ter o direito de consumir e produzir bens de consumo que constituam alternativa às referências negativas que sobre nós constrói a sociedade heterossexista? Quem nos dera - e provavelmente está aí um dos caminhos estratégicos para o crescer do movimento LGBT português, das suas marchas e representatividade social - que mais comerciantes e empresários LGBT tivessem consciência da utilidade que poderiam ter se fossem solidários com a causa do movimento social.

Mas não, para a maioria, ainda hoje (e claro que há boas excepções), a única causa é a do dinheiro. Por isso nos insurgimos, por exemplo, no ano passado, contra a organização de uma Lesboa Party que recusou ter materiais de prevenção lésbicos na sua festa, porque isso representa total falta de solidariedade e de consciência social por parte do negócio, que na maioria das vezes quer lucrar com a comunidade mas não quer contribuir para a sua emancipação. O que não surpreende, aliás, num País tão fóbico em que chega a ser mais fácil encontrar heterossexuais que compreendem e pressentem esta discriminação, do que gays,
lésbicas, bissexuais ou trans que reconheçam a discriminação de que são alvo a todo o momento. "Eu nunca fui discriminado", dizem-nos. E nós rimos, ou choramos, é para onde der, mas indiferentes não podemos ficar, e nesse momento temos consciência do nosso atraso.
Compensam-nos as afinidades que encontrámos com tantos grupos de activistas de Madrid - e de Aragão, Catalunha, País Basco, Galiza, Andaluzia - que não se renderam à total comercialização e despolitização do movimento LGBT que por ali faz mossa funda e que observado de perto desmistifica em grande medida essa "Espanha" que o movimento LGBT tem aqui usado como referência estratégica para tentar - tarefa ingrata - iluminar alguma coisa das cabecinhas envergonhadas dos políticos portugueses.

De resto, de assinalar o cortejo da ILGA Portugal, que optou por participar no desfile oficial com uma faixa "Portugal zero, Espanha 3", igualmente muito bem recebida pelo público, e ainda bem, por ser mais 1 dos poucos expoentes políticos naquele grande circo a que chamam europride e que mais parece um desfile de multinacionais, um culto bizarro do corpo (masculino) formatado, uma celebração do dinheiro e do consumo, com muito pouca consciência social e política, e já muito pouco de afirmação identitária de um grupo que também ali continua socialmente oprimido. É bom sair de Portugal e ver que não estamos sozinhos, e que tantos e tantas pensam como nós e sentem falta da política e de um movimento social a sério. E é bom sabermos, como também se gritou, que "ainda bem que não somos barbies".

Visto daqui ao lado:

domingo, julho 01, 2007

Manifestació per l'alliberament gai, lesbià i transsexual BARCELONA 30/06/2007


Observatório Homofobia/Transfobia na Saúde @ Médicos Pela Escolha
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